Luísa Mendonça, 22, Brasil.
(via thepureskin)
(via mentalalchemy)
Pele de vidro
Metabolismo original
Olhar vazio
Análise conformacional
Estudo
De um exemplar
Aleatório
Tridimensional
Nu
Cru
Real
Sem pudor
Sem repressão
Sem monitoramento
Sem conclusão
Supervisão
Apenas
-pausa para refil de nanquim,-
Verdades
Incontestáveis
Circulam
O organismo
Desse indivíduo
Da população
Entubado
Dopado
Involuntário
Desconhece sequer
O que se passa
Desconhece sequer
Sua casa
Sua ideologia
Sua ecologia
Desconhece sequer
A nova cadeia alimentar
O destino das massas de ar
Desconhece o que restou do planeta
Além de tudo
Desconhece seus valores
Seus princípios
Ele está exposto
Inconsciente
Exemplificando
Rispidamente
A lógica por traz
Do desprezo que o poeta tem
Pelo bípede mais soberbo do planeta Terra
Gente
Rústica
Rude
Gente ruim
Não há confessionário
Que caiba o perdão do mundo
Porque o mundo vegeta
A espera de uma eutanásia
-DON’T PRESS THE BUTTON-
Impulsividade!
Explosão!
Expansão do universo!
Poetas ásperos
Sobrevivem ao apocalipse
E tudo o que lhes resta
É escrever
Luísa Mendonça
Do ultimo Carnaval
Já era tempo
De juntar todos os rascunhos
E reciclar os templos que foram tombados pelo patrimônio histórico do meu ser
Já era tempo
De fazer cultura com meu corpo
E exalar cores no meu cheiro
Abrir mão do dinheiro
Limpar meu cinzeiro
Concertar meu veleiro
Fugir do cativeiro
Exorcizar este espírito caseiro
Que me prendeu aqui
Já era tempo
De tatuar de novo
Entregar-me inteiramente enquanto estampo;
Acabar esse trampo
Over and over again
Admitir que cada pedaço de pele que eu tampo
É um pedaço de pele tocado pela imaginação de alguém
E isso basta
Como isso basta, Sapiens.
Você não tem a mínima ideia.
Já era tempo
De admitir que eu acampo
Pra esquecer que o ser humano
Já não vale nem o bacilo que,
Na cissiparidade de seu ciclo,
Demonstrou que só precisa de cópula
Quem é incompleto demais
Não me completa, Sapiens,
Me transborda, por favor.
Vamos fazer amor
Sabendo que não há nada além de amor pra se fazer
Virar beija-flor
Lambuzar de néctar, deixar dissolver
Contar pro pastor
Que eu floresço de novo
Cada vez que me fazem gemer
E gritar
E sorrir
E gargalhar
Né não?
Viver!
Pecador é o senhor
Que abdicou do seu prazer
Já passou da hora, Sapiens
Luísa Mendonça
22 de agosto de 2016
Pintar-nos em sonhos
Não me leva mais a qualquer lugar
Nem álcool, nem drogas
Eu preciso de você aqui
Contudo, isto é impossível
E o que a bebida acaba por fazer
É eu te amar sem dor
Poder falar sem medo
Mesmo que ninguém ouça
Que você mora aqui e que eu não sei lidar com isso
Ante o frio,
faz com o coração
o contrário do que fazes com o corpo:
despe-o.
Quanto mais nu,
mais ele encontrará
o único agasalho possível
— um outro coração.
Mia Couto
(via epicas)
Olho, olho
Mão, mão
Boca, boca
Mão, cabelo
Cintura, cintura
Costas, lençol
Peito, peito
Coxa, coxa
Boca, boca e vaiL.
Onde estão as almas dos seres humanos que ainda vivem?
Vagam?
Vigoram?
Voam sobre nós?
Eu perdi a fé nas pessoas
E, na desconstrução do especismo,
Descobri que minha casa chama-se Terra,
Descobri que não é familiar minha relação com ela,
Não é hierárquica,
Não é religiosa.
Eu não sou discípula,
Eu não sou criada,
Eu não sou mãe,
Eu não sou filha,
Eu não sou “alguém” desse organismo que flutua no espaço.
Eu não quero ser nunca “alguém” daqui,
Essa palavra é tão “gente”,
É tão homo,
Tão antropo,
Tão pouco.
Sobre o que eu sou desse Planeta,
Além de eternamente grata.
Sobre onde eu estou nesse Planeta,
Além de eternamente sobre.
Sobre quem eu sou nesse Planeta,
Além de meramente “alguém”.
Análoga a uma organela,
Eu apenas existo nesse corpo,
Mas dependo dele,
Inteiramente.
Analogamente,
Porque literalmente
Eu não sei.
(…)
De uma viagem que começou na rebeldia,
eu notei que a gente não tem tanto tempo para viver,
Sentirmos vivos.
O tempo que temos é o agora.
O contexto social da humanidade não abre portas para viagens,
A não ser que as arrombemos com a fome de mil leões,
A não ser que nos desenvolvamos numa placenta de nata,
A não ser que o contexto social não seja tudo o que você conhece;
Você não nasceu para viajar,
Criar estórias,
Amar e ser amado
Completamente.
Mas você nasceu
E você está vivo,
Ocupando um espaço,
Respirando parte do oxigênio,
Sendo
ALGUÉM.
Na cegueira que lhe é imposta
Existe um ponto glorioso e nítido,
Conhecido como o “seu umbigo”:
Isso é tudo o que vê.
Muito além da alienação,
Manipulação de massas.
Muito além do que o homem fez ao próprio homem,
Há o que o homem fez e faz ao corpo em que reside;
Tão alastrado quanto um câncer,
Ainda mais infiel que Judas,
Que vai sugando toda a dignidade,
De todas nossas existências.
Também por isso o nojo
De ter dado a sorte
De ter o privilégio
Dessa chamada ‘racionalidade’.
Queria eu ser uma célula tronco desse corpo
E me transformar no que eu bem quisesse
Mas eu, organela insignificante
Sou apenas “alguém”.
Apesar de tudo
Que há além de mim.
Luísa Mendonça
23 de julho de 2016
Eu vi uma criança mimada chorando na rua hoje
E me lembrei de Freud
Depois pensei em mim mesma
Pensei nas coisas que minha mãe diz
Sobre minha infância
Ela não usa a palavra “fria”
Eu só era quieta, séria
Se doía, não chorava
Se tinha graça, eu não ria
Ainda assim minha mãe me chamava de flor
Até hoje ela me chama assim
E desde sempre, por conta disso
Eu enxergo pétalas imaginárias envolvendo as crianças
Mas o que Freud diria?
O que ele diria sobre mim?
Afinal, para ele as pessoas eram tão óbvias
As próprias crianças eram previsíveis
Pra mim, crianças ainda nem são pessoas
São só flores mesmo
Enfim
Eu sou tendenciosa pra falar de Freud
E eu ainda tenho muito a aprender
Mas eu também sou tendenciosa quando o assunto é ética animal
E isso se deve à carência de humanidade
Que eu vi com os meus olhos
Durante a minha vida
Ainda que eu seja fã de Gandhi
Então, eu falo, eu xingo
Eu li e tenho muito mais de ler
Mas as vezes parece que Freud nunca foi criança
Eu não suporto Freud
Margarete era o nome da professora que me plantou essa repulsa
A disciplina era “Psicologia da Educação”
E, com uma didática duvidosa, ela analisou Freud ao pé da letra
Imagine só! Tá aí a raiz da minha tendência
A questão é que as vezes
Eu reparo em seres humanos específicos
Realmente imaginando “quem é essa pessoa?”
“O que se passa na cabeça dessa pessoa?”
Mas eu gosto mesmo é de fazer isso com as flores
Crianças são fáceis e difíceis de se reparar
Desprovidas de maldade,
Não nos deixam com o pé atrás
Mas o que eu acho mais incrível nas crianças
Nas mais pequenas
É que eu posso revirar minha memória
Que eu não me recordo de forma alguma
O que se passava na minha cabeça
Quando eu era uma criança
Um baby
Uma frô
Não saber é uma delícia
Olhar, não conter o sorriso causado pela pureza
E não ter a menor pista de seus pensamentos
É delicioso
Não tiramos conclusões.
Ver essa criança hoje me lembrou Freud
Essa lembrança me levou a escrever esse texto
Esse último verso me lembrou uma pessoa muito especial
Sobre a qual já escrevi duas vezes
E da qual já escutei muitas coisas bonitas:
Iago
Iago, há menos de uma semana
Direto da Austrália, via Skype
Me disse aquela porção de coisas irreproduzíveis que ele sempre diz
“Sobre o amor, sobre o carinho
Sobre a cidade grande e a sutileza da vida”
Foi numa dessas que eu aprendi a não tirar conclusões
Ou pelo menos foi numa dessas que eu enrosquei uma lâmpada na minha cabeça
E essa lâmpada se acendeu hoje quando eu vi essa criança
Foi numa dessas que o mistério das crianças foi levemente solucionado
Porque aprendi que, na vida, as melhores e as menores coisas não tem solução
E isso é outra delícia
Enfiar tudo que Freud disse no cu dele é demais
Pois devemos reconhecer sempre pessoas a frente de seu tempo
Mas quero deixar bem claro que não é por tentar ser poeta
Que eu sentimentalizo tudo a minha volta
É por reconhecer que não se generaliza comportamentos
Por mais que possamos prever reações
É por desacreditar no complexo de Édipo
É por amar o cheiro das flores
É por clamar com todas as letras
(Complicado ou não, objetivo ou subjetivo):
Por favor
Não pratiquemos a psicanálise
Antes de fazer amor
Luísa Mendonça
12 de julho de 2016
Desde o momento que terminei esse texto
Me impressionei por não ter usado a palavra “cultura”
E eu acho que Freud nunca teve um orgasmo
Paul Klee
Night Feast (Nächtliches Fest) 1921
Paul Klee - Portrait of an Artist
Paul Klee - villas florentines -1936
Fazer o que né? Tumblr é quase uma arte morta agora.